terça-feira, 18 de agosto de 2015

Ação para não ciclistas (by bike anjo)

O Bike Anjo vem sempre buscando novas formas de mobilizar mais pessoas por meio da bicicleta e no nosso 1º Encontro Nacional do Bike Anjo em 2014 (ENBA-2014) surgiu a ideia de fazermos uma ação direcionada a um público para o qual o Bike Anjo geralmente não faz ações diretas, que denominamos de “não-ciclistas”. São motoristas profissionais (de táxi, ônibus, vans e caminhões) ou não e motociclistas que, apesar de toda sensibilização sobre o uso e a qualidade da bicicleta como meio de transporte não podem/conseguem usá-la como meio de transporte.
A segurança de quem pedala tem relação direta com quão visível para os motoristas essa pessoa é. No entanto, as pessoas que não estão com o pensamento conectado de alguma forma com o uso da bicicleta tendem a não “enxergar” as bicicletas nas ruas. Isso é um fato, que inclusive já foi objeto de diversos estudos na área da psicologia. As pessoas tendem a ignorar inconscientemente tudo que não está relacionado de alguma forma com a sua realidade. É muito comum as pessoas que decidiram começar a pedalar recentemente relatem que antes “nunca tinham percebido como havia tantas bicicletas nas ruas”. Também é comum nos casos de acidentes envolvendo veículos motorizados e bicicletas os motoristas afirmem que não viram a bicicleta.
Essa ação tem a intenção de, mostrar a esse motorista “não ciclista” que o usuário de bicicleta pode e deve estar nas ruas, de tornar o ciclista visível aos olhos desse público e de mostrar que a nossa presença trás benefícios para toda a cidade inclusive pra ele.
Abaixo podemos listar alguns benefícios do uso intensivo da bicicleta como modal de transporte que podem ser compartilhados também por quem não usa a bicicleta:
– Uma bicicleta na rua pode ser um carro a menos ou uma pessoa a menos usando o modal coletivo de transporte já tão sobrecarregado nas grandes cidades, a bicicleta melhora a mobilidade de todos;
–O uso da bicicleta em grande escala como modal de transporte comprovadamente torna as ruas mais seguras para todos, inclusive para os pedestres, quanto maior o número de bicicletas na rua, mais visíveis elas se tornam;
– Cidades com alta taxa de utilização da bicicleta tem uma grande redução de emissão de gases poluentes e com consequente melhoria na qualidade do ar. Em São Paulo, a poluição mata indiretamente vinte pessoas por dia, agravando e acelerando problemas como infarto, acidente vascular cerebral, pneumonia, asma e câncer de pulmão. E 90% das emissões de poluentes em São Paulo é causada pelos veículos automotores;
– A produtividade no trabalho de quem usa a bicicleta como transporte aumenta, em decorrência da melhora do humor e da diminuição do stress. A cabeça tranquila permite um melhor julgamento em situações críticas;
– Quem está de bicicleta não coloca vidas em risco, pois a bicicleta trafega a velocidades mais próximas a escala humana e é mais leve que os outros veículos oferecendo menor risco em caso de acidentes. Já os motorizados são responsáveis por mais de 50 mil mortes e 153 mil internações no SUS por ano no Brasil (número de mortes no trânsito – Mapa da Violência 2013)
– A atividade física regular previne doenças cardíacas e AVCs, hipertensão, ajuda a controlar o diabetes, aumenta a resistência aeróbica, reduz a obesidade, ativa a musculatura de todo o corpo, diminui a ocorrência de doenças crônicas, faz bem para a saúde do idoso e aumenta o tempo de vida. Todos esses benefícios para a  saúde do usuário desse modal, vão significar um menor uso do SUS ajudando a desafogar o sistema e reduzindo a despesa para os cofres públicos, mais um benefício para toda a sociedade.
Por estas e outras razões, essa campanha proposta se mostra mais que oportuna e tem como objetivo principal produzir conteúdo, materiais e instrumentos que possam ser usados no convencimento dos “não-ciclistas” de que a presença dos ciclistas nas ruas só trás benefícios para toda a cidade e por isso eles não devem ser só respeitados mas a sua presença deve ser estimulada. Esses materiais devem ser um facilitador para que toda a rede Bike Anjo possa replicar essa ação localmente ou para que as empresas que possuem “não-ciclistas” possam ser capacitadas.
http://bikeanjo.org/2015/08/18/acao-para-nao-ciclistas/

terça-feira, 21 de julho de 2015

Bike vida mansa


Por estes tempos tenho curtido a bike de maneira mais slow. Entre uma pedalada e outra aproveito os pequenos passeios pela redondeza, ou melhor, pelas margens do Velho Chico. Então só para dizer um "olá" aos amigos que acompanham este blog, seguem duas fotos e também o anúncio de que, em breve, estarei firme e forte em novas aventuras!






quinta-feira, 14 de maio de 2015

quarta-feira, 29 de abril de 2015

E agora José? Encarando o desafio após o Fim do Mundo


Havia marcado com a “Turma do Pedal” de Juazeiro uma saída para o domingo. Esta seria a primeira vez que iria rodar com o pessoal (na verdade conheci esse pessoal por acaso, ou melhor, uma parte dessa galera quando pedalava para Sobradinho, daí fui adicionado no whatsApp do grupo).

Era domingo e foi combinado o local de saída na cabeceira da Ponte Presidente Dutra (do lado de Juazeiro) por volta das 5h. Cheguei a pensar que não iria rolar e entrei em contato com o parceiro Luciano Ribeiro, que prontamente me convidou para o seu pedal as 6 da matina. Terminei por encontrar os caras da “Turma do Pedal”, agradeci ao Luciano e parti com essa turma (só fiquei meio cabreiro, pois todos estavam com speed, apenas eu e Luiz estávamos de MTB).

Seria um bom pedal após o meu retorno do Fim do Mundo (mais ou menos um mês antes havia percorrido 1100km, de El Calafate à Ushuaia). Realmente estava na fissura de algo desafiador. Iríamos rodar, aproximadamente, 120km, ida e volta, Juazeiro - Sobradinho. Os caras chamaram esse pedal de “volta ao Lago” (uma alusão ao Lago Sobradinho).

Apesar de não estar me sentindo cem por cento, topei a parada. Havia ainda dor no joelho, tive insônia na madruga (acordei as 2h da manhã e não voltei a dormir) e sacava que estava fora de forma. Mesmo assim, como acabei de dizer, topei a parada.

Logo de cara, por volta dos 30km, senti câimbras nas pernas. Diminui a velocidade e joguei a marcha a níveis mais lentos. Percebi também que naquele grupo havia algo que se repetia em outros grupos de bikes, ou seja, o cuidado e a acolhida com os seus membros, mesmo os novatos.  Tanto o Luís, quanto o Dedé (o mais velho do grupo e, segundo a galera, o “mestre”) estavam sempre ao meu lado e perguntando como eu me sentia.

Essa atenção e cuidado ainda merecem melhores e maiores conhecimentos para que se possa relacionar, de fato, com a prática esportiva e de lazer do ciclismo. Entretanto, sou levado a pensar que há alguma coisa dessa prática que termina por influenciar relações mais acolhedoras e cooperativas (embora exista, visivelmente, muito comportamento competitivo entre os ciclistas). Por sua vez, isto também me faz pensar em como poderia ser um trânsito (enquanto meio de transporte) regido por bicicletas. Se esta hipótese estiver correta, possivelmente teríamos um trânsito menos agressivo e mais respeitoso, sem falar da chamada “mobilidade limpa” (o transporte via bike não polui o meio ambiente).

Depois dos 30km as câimbras nas pernas foram acrescidas pelas já conhecidas dormências nas mãos. Em dado momento, parei para descansar o tomei um desses suplementos ricos em carboidratos. Deu uma melhorada legal e pude chegar bem até o entroncamento que dá acesso a estrada de Sobradinho (fomos por Petrolina e voltamos por Juazeiro). Desse entroncamento até Sobradinho foi muito massa, sem dores e o visual muito bacana. De um lado serras e do outro o grande Lago de Sobradinho.

Chegamos na cidade por volta das 8h (na verdade saímos um pouco mais de 5h30 de Juazeiro) e paramos em uma barraquinha para comermos alguma coisa. Aquela altura o sol já estava forte. Aproveitamos para passar protetor solar e trocar as vestimentas de modo a nos proteger dos raios solares, mas certamente o calor impiedoso não seria clemente.

Saímos de Sobradinho por volta das 8h30 e logo percebi que as câimbras iriam voltar, além da dor no joelho, dormência nas mãos e mais dois elementos novos: calo no pé e febre (minha filha estava gripada tinham dois dias e provavelmente havia pego a sua doença).

Mesmo sendo um dos últimos do grupo, continuava a pedalar. Com certeza sempre tinha a minha companhia o mestre Dedé e outros membros do grupo que me acompanhavam por puro e valioso senso de grupo. Possivelmente, eles não sabiam (e não souberam até o final) do que eu estava vivendo, até porque não queria preocupar a galera.

Quando já estava pensando em ficar debaixo de alguma árvore e debandar do grupo (estava um calor da porra e como sentia febre, havia um ressecamento terrível na garganta), eis que surge um vilarejo. Os companheiros que estavam a frente tinham feito um pit stop. Ôpa! A salvação!

No bar do vilarejo, onde nos abastecemos com muita água, refrigerante, etc. “aterrissou” também um outro grupo de ciclistas. Estes, no caso, estavam todos com MTBs. O plano deles era voltar por uma estrada de barro, passando por Rodeadouro. Isso seria muito bom, pensei, pois juntaria o útil ao agradável. Pedalaria mais de boa na estrada de barro, daria um tempo no Rodeadouro (com direito a banho de rio e descanso) e me encontraria com alguns colegas. Beleza! O convite foi aceito!

Despedi-me da “Turma do Pedal” (já com saudade e com vontade de marcar outras pedaladas) e parti com aqueles cinco jovens. O ritmo deles foi foda no começo. Logo pedi arrego e dois ficaram ao meu lado. Novamente, a questão do companheirismo e solidariedade se evidenciaram nessa prática. Eu até tentei argumentar que não precisariam atrasar o pedal ou diminuir o ritmo por minha causa, pois eu estaria “numa boa”. Sem conversa.

Chegamos ao Rodeadouro, agradeci muitíssimo aquela rapaziada (infelizmente não guardei contatos) e nos despedimos. Estava, na verdade, louco para me jogar no rio e me refrescar.

Pedalei mais um pouquinho e quando estava já chegando na margem, apareceu um menino brincando e falando comigo. Tentei frear a bike, mas como era uma descida, perdi o controle e, na tentativa de me equilibrar, distendi um músculo da coxa. Foi uma dor que me levou à lua! Fiquei bem uns 10 minutos segurando minha perna... Fui me banhar e tentar relaxar. A dor até diminuiu. Pensei em ligar para minha esposa e ver a possibilidade de almoçarmos por ali mesmo e voltar com ela de carro. Para minha surpresa, o celular havia descarregado. Bem, mas isso não seria um grande empecilho, pois poderia, em bar, pedir ou pagar um crédito de ligação para alguém.

Pois bem, procurei um barzinho, pedi uma cervejinha (até mesmo para relaxar a musculatura) e chequei com o pessoal, local, se seria possível fazer uma ligação. Tentei celular do garçom, do dono do bar, de transeuntes e nada! Ou não dava sinal, ou não completava a ligação ou simplesmente chamava e ninguém atendia (tanto para o fixo de minha casa, quanto para o celular de minha esposa – esta se encontrava em trânsito, pois viajara à Remanso, sua terra natal).

E agora José? Estava sem condições físicas (pelo menos era o que pensava naquele momento) e não tinha como sair dali. Lembrei da velha história do abismo e da cereja, onde o sujeito se encontrava pendurado no abismo e olhando para um lado, avistou uma cereja. Diante do caos, optou por aproveitar a vida, colheu a cereja e se deliciou com ela. Pedi outra cerveja!

Após um tempinho, resolvi encarar o meu destino. Afinal, não seria este o meu desafio após o Fim do Mundo?

Por volta das 14h cheguei em casa completamente sequelado. Pedalei em um ritmo lento, mas de boa. O grande problema foi o sol escaldante. Dias depois continuei a me recuperar da gripe, mas na ânsia de encarar a próxima. E aí galera, quando será o pedal?







terça-feira, 21 de abril de 2015

Os verdadeiros campeões

Após um tempo de quase recesso com a bike, saí no dia 19 de abril para dar uma pedalada. Aqui em Juazeiro foi a corrida de Tiradentes. Como havia perdido o horário das 6h para um encontro com os parceiros (foi mal Luciano Ribeiro – e também galera do Pedal de Jua), aproveitei para curtir a preguiça da cama e namorar um pouquinho. Bem, só deu mesmo para bater um pedal as 9h, mas ainda aproveitei o final da corrida Tiradentes. Fui até perto do ponto de partida e voltei no vácuo dos retardatários. Um dos últimos corredores era um senhor, possivelmente de seus quase 70 anos. Um assistente da comissão organizadora do evento o acompanhava, assim como um carro de apoio. Este senhor estava cansado, o último, possivelmente, já não corria, andava, mas mesmo assim, estava lá. Ao passar por ele não me contive. Parabenizei-o e disse que ele era um grande exemplo para todos. Ele sorrio sutilmente e me cumprimentou. Acelerei o pedal e segui adiante. Inevitavelmente, lembrei do mestre Arestides, companheiro de pedal na Patagônia. Ele foi um grande exemplo para gente, o seu gesto de estar conosco, por si, já valia a pena. Estes senhores que não desistem, que insistem, inspiram, porque respiram vida e refutam a cristalização de uma existência, na terceira idade, de não poderem ser jovens, estes, portanto, são os verdadeiros campeões.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Décimo segundo dia de pedal - a chegada e redenção

Na manhã de uma terça-feira, acordamos ainda ressaquiados da pegada do dia anterior. Particularmente, ainda lembrava da minha mão que ficara adormecida (por causa do frio e da posição que meu guidom estava) e sentia o dolorido da bunda por conta de ficar muito tempo sob o selim. A perna também estava mal, sobretudo por causa dos esforços redobrados que eu era obrigado a imprimir para vencer o vento. Doía muito, principalmente quando o sopro dos céus batia e obrigava a dar pedaladas mais fortes para manter a velocidade e equilibrar a bike.
Tínhamos apenas um trecho a completar e nos restava, mais ou menos, 70 km pela frente. O desafio era que estaríamos em picos de montanhas mais altos e, consequentemente, em uma temperatura mais fria. Além disso, pegaríamos 5 km de subida, além de enfrentarmos possíveis rajadas de vento vindo de qualquer direção.
Deixamos aquela casinha e agradável propriedade com bastante gratidão. Procuramos o Pedro para nos despedir, mas como não o encontramos, deixamos um bilhete de "gracias".
O clima do grupo ainda estava pesado, talvez até tenha piorado porque Alex anunciara que iria partir na frente, sem o grupo. Esta decisão abalou a galera porque queríamos muito chegar todos juntos. Imaginávamos, caramba, todos pedalando unidos e entrando na cidade de Ushuaia. Mas fazer o que!? Tocamos o pedal!
Realmente, a questão de grupo, em uma aventura como essa, passa a ser um dos principais desafios. Pessoalmente, reprovo radicalmente estes programas que exploram o "lixo humano", como os reality shows (o Pedro Bial do BBB, por exemplo, vai falar, cinicamente , de "circo dos horrores"). Avalio que esses programas exploram e reforçam o que há de pior na humanidade. É claro que não podemos e não devemos negar que existem coisas nefastas na humanidade, mas incentivar e potencializar isso são coisas completamente diferentes. Mas voltando ao nosso grupo e a situação que estávamos expostos, essas crises que vivíamos poderiam ser consideradas comuns. Entretanto, certamente não queríamos potencializá-las, afinal não estávamos e não acreditávamos em "circos de horrores".
De modo específico, para mim, viver essas tensões no grupo não foi uma coisa fácil. Primeiro porque era novato na galera e muita coisa me escapava. Por outro lado, estava como uma espécie de observador / pesquisador e precisava ter um relativo distanciamento para refletir melhor sobre as paradas dos momentos. A estratégia encontrada foi saber estar junto/presente e ao mesmo tempo distante para evitar tomar partidos e não perder a abrangência das percepções.
O nosso pedal começou de boa, mas logo nas primeiras pegadas sentimos frio e sacamos que a coisa não seria fácil. Havia também uma certa ansiedade na gente, afinal eram os últimos quilômetros depois de 12 dias de pedaladas.
Para compensar tudo isso, o visual que vivíamos era incrível! Havia montanhas, vários pequenos rios e cachoeirinhas, muitas árvores, um lago ao lado (Lago Escondido) que margeávamos quilômetros e quilômetros. Pedalávamos cortando as montanhas e o víamos (o lago) lá de cima. Na sequência, passamos pelo Paso Garibalde (uma antiga estrada que levava ao complexo de montanhas e ao Lago Escondido). Eram grandes subidas e descidas, aliás as descidas eram deliciosas. 
Largávamos os freios e deixávamos soltar. No embalar das bikes, atingíamos velocidades que se aproximavam dos 60km/h, velocidade a todo risco, como diria o poeta Damásio da Cruz. Tudo isso com toda a boniteza da natureza ao nosso redor. No pico das montanhas havia neve e isso dava um toque todo especial.
Aquelas subidas pioraram as dores em minhas pernas, que estavam moídas dos vários dias de pedais. Alem disso, o que acentuava a ansiedade em relação a chegada era ver a quilometragem do ciclo rodando e os cálculos regressivos: faltam agora 35km, faltam agora 20km... 
Fato é que os últimos quilômetros estavam adicionados a ansiedade e o cansaço acumulado. Por mais que tivéssemos sorte nas dormidas ou pelo menos em algumas delas, dormir em saco de dormir, por exemplo, não era uma coisa fácil. 
No frio do austral não bastava só barraca. Havia necessidade de ter o saco de dormir. A gente ficava no saco de dormir, dentro dele, bem retinho, aí quando começava a incomodar a posição, a gente mudava de lado, e então a gente acordava e a voltava a dormir...  E se a gente ficava em uma parte de fora da manta térmica, voltava a fazer frio e acordava a gente (o esquema era o seguinte: barraca, manta térmica e por cima o saco de dormir). Apesar de todas as turbulências e dificuldades, tínhamos muitos momentos de humor e jorros de risos.
Assim, só para descontrair, não mais que Del, havia colocado uma pedra de uns 2kg escondida no bagageiro de Raffaello (alcunhado, por Del, de "menininho de ouro"). Raffaello, na sua inocência, ultrapassava a gente, como de costume, e se mandava para frente. Em uma das vezes, disse que a sua bike estava leve! Ao estar a nossa frente, avistávamos a grande pedra que carregava e nos pocávamos  de dar risadas ! E olhe que estávamos subindo uma serra terrível!! Raffaello andou carregando esse pedregulho no bagageiro por uns 15 km até que, em uma das paradas, percebeu a dita cuja. Ainda bem que ele teve senso de humor.
Depois de termos atingindo o pico, começamos a descer. Após um certo tempo, quando nos aproximávamos de um restaurante em uma estação de esqui, vimos que Alex estava na beira da estrada, sentado, se tremendo de frio e esperando a gente. Foi muito bom para todo mundo vê-lo e sabermos que ele havia ficada com a gente. Ao nos aproximar, ele foi logo dizendo que no restaurante vendia um chocolate quente muito massa. Paramos e fomos nos aquecer com o néctar dos deuses no charmoso e aconchegante restaurante. Quando estávamos, todos, à mesa a degustar do quente e caro achocolatado, Del se aproximou e pediu desculpas à Alex pelas possíveis ofensas provocadas e pelos desentendimentos desencadeados. Alex, imediatamente acolheu Del no seu sublime gesto. Aquela cena emocionou todo o grupo, pois sabíamos que a depender do que rolasse a viagem poderia ser uma coisa bacana ou uma coisa "pesada". Sabíamos da importância e do que representava aquele pedido de desculpas e o aceite. Em dado momento, nós nos olhamos e nos percebemos profundamente tocados. Posteriormente, Alex confidenciou que precisava ter um momento só, mas jamais iria cruzar Ushuaia sozinho. O incrível disso tudo foram os gestos dessas duas figuras. Alex, por ter mantido o sentido de grupo e não desistido dele (o grupo) e Del, justamente "o palhaço" da galera, por ter tido o brio de pedir desculpas. Realmente almas elevadas.
Toda aquela situação de rodopios do grupo me fez lembrar de um filme chamado "Crash, no limite", que mostra as diferentes realidades dos personagens a depender do ponto de vista que se aborde. Daí pensei que o importante mesmo seria buscar ao máximo as várias perspectivas, ou seja, em outras palavras, ser compreensivo, sobretudo no que diz respeito às relações.
Saímos do restaurante nutridos, aquecidos e de "almas lavadas". Pegamos a estrada. Algumas poucas subidas, mas a boa parte foi só descida. O problema mesmo foi o frio, porque ao descer não fazíamos esforço (que ajudava a gente a esquentar). Estávamos já próximos e já podíamos avistar o portal de entrada da cidade Ushuaia. Uma emoção incomensurável nos tomou. Foi uma alegria intensa. Lembramos dos nossos esforços, das nossas labutas, das dificuldades, de tudo que passamos, dos nossos parceiros que nos aguardavam no hostel, dos sabores e dessabores dessa aventura e tivemos a certeza de que tudo valeu, valeu a pena porque durante toda aventura nossa alma não foi pequena (parafraseando o poeta Fernando Pessoa).
Com todas as certezas, aprendemos muito e produzimos vários sentidos nessas experiências.
Um desses sentidos foi compreender que a aventura ciclística não apenas nos possibilitou ultrapassar os nossos limites, mas sobretudo reconhecer os nossos limites e também os limites e imperfeições do próximo (uma grande lição que o Arestides legou para gente).
Depois de alguns dias de repouso em Ushuaia, nos despedimos de tudo aquilo na magia do período de Páscoa e com direito a neve.
E agora, aqui, nas lembranças, recordações, no reviver... Fico a pensar o quanto Arestides foi nosso farol e motivo de orgulho, o quanto Chico foi fiel e parceiro, o quanto Raffaello foi sóbrio e soube conviver no meio das diferenças, o quanto Nilo foi amigo e sábio, o quanto Paulo foi seguro e parceiro, o quanto Del foi alegre e companheiro, o quanto Alex foi cuidadoso e prestativo, o quanto pude aprender com todos eles, como aquilo...
Mas a pergunta que não queria se calar e que passava por todos nós era "o que estou fazendo aqui!?" Esta pergunta tão comum para gente, sobretudo nos momentos mais difíceis levava a outra:  "o que movem esses ciclistas ?!" 
Responda você, mas responda experimentando.