É com muita alegria que anuncio o lançamento do livro que conta um pouco da aventura que eu e mais 7 ciclistas vivemos nas bandas da Patagônia!
Registros e reflexões sobre o ensinar e o aprender. Um estudo fenomenológico da aventura vivida do ciclismo.
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quinta-feira, 14 de maio de 2015
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Décimo segundo dia de pedal - a chegada e redenção
Na manhã de uma terça-feira, acordamos ainda ressaquiados da pegada do dia anterior. Particularmente, ainda lembrava da minha mão que ficara adormecida (por causa do frio e da posição que meu guidom estava) e sentia o dolorido da bunda por conta de ficar muito tempo sob o selim. A perna também estava mal, sobretudo por causa dos esforços redobrados que eu era obrigado a imprimir para vencer o vento. Doía muito, principalmente quando o sopro dos céus batia e obrigava a dar pedaladas mais fortes para manter a velocidade e equilibrar a bike.
Tínhamos apenas um trecho a completar e nos restava, mais ou menos, 70 km pela frente. O desafio era que estaríamos em picos de montanhas mais altos e, consequentemente, em uma temperatura mais fria. Além disso, pegaríamos 5 km de subida, além de enfrentarmos possíveis rajadas de vento vindo de qualquer direção.
Deixamos aquela casinha e agradável propriedade com bastante gratidão. Procuramos o Pedro para nos despedir, mas como não o encontramos, deixamos um bilhete de "gracias".
O clima do grupo ainda estava pesado, talvez até tenha piorado porque Alex anunciara que iria partir na frente, sem o grupo. Esta decisão abalou a galera porque queríamos muito chegar todos juntos. Imaginávamos, caramba, todos pedalando unidos e entrando na cidade de Ushuaia. Mas fazer o que!? Tocamos o pedal!
Realmente, a questão de grupo, em uma aventura como essa, passa a ser um dos principais desafios. Pessoalmente, reprovo radicalmente estes programas que exploram o "lixo humano", como os reality shows (o Pedro Bial do BBB, por exemplo, vai falar, cinicamente , de "circo dos horrores"). Avalio que esses programas exploram e reforçam o que há de pior na humanidade. É claro que não podemos e não devemos negar que existem coisas nefastas na humanidade, mas incentivar e potencializar isso são coisas completamente diferentes. Mas voltando ao nosso grupo e a situação que estávamos expostos, essas crises que vivíamos poderiam ser consideradas comuns. Entretanto, certamente não queríamos potencializá-las, afinal não estávamos e não acreditávamos em "circos de horrores".
De modo específico, para mim, viver essas tensões no grupo não foi uma coisa fácil. Primeiro porque era novato na galera e muita coisa me escapava. Por outro lado, estava como uma espécie de observador / pesquisador e precisava ter um relativo distanciamento para refletir melhor sobre as paradas dos momentos. A estratégia encontrada foi saber estar junto/presente e ao mesmo tempo distante para evitar tomar partidos e não perder a abrangência das percepções.
O nosso pedal começou de boa, mas logo nas primeiras pegadas sentimos frio e sacamos que a coisa não seria fácil. Havia também uma certa ansiedade na gente, afinal eram os últimos quilômetros depois de 12 dias de pedaladas.
Para compensar tudo isso, o visual que vivíamos era incrível! Havia montanhas, vários pequenos rios e cachoeirinhas, muitas árvores, um lago ao lado (Lago Escondido) que margeávamos quilômetros e quilômetros. Pedalávamos cortando as montanhas e o víamos (o lago) lá de cima. Na sequência, passamos pelo Paso Garibalde (uma antiga estrada que levava ao complexo de montanhas e ao Lago Escondido). Eram grandes subidas e descidas, aliás as descidas eram deliciosas.
Largávamos os freios e deixávamos soltar. No embalar das bikes, atingíamos velocidades que se aproximavam dos 60km/h, velocidade a todo risco, como diria o poeta Damásio da Cruz. Tudo isso com toda a boniteza da natureza ao nosso redor. No pico das montanhas havia neve e isso dava um toque todo especial.
Aquelas subidas pioraram as dores em minhas pernas, que estavam moídas dos vários dias de pedais. Alem disso, o que acentuava a ansiedade em relação a chegada era ver a quilometragem do ciclo rodando e os cálculos regressivos: faltam agora 35km, faltam agora 20km...
Fato é que os últimos quilômetros estavam adicionados a ansiedade e o cansaço acumulado. Por mais que tivéssemos sorte nas dormidas ou pelo menos em algumas delas, dormir em saco de dormir, por exemplo, não era uma coisa fácil.
No frio do austral não bastava só barraca. Havia necessidade de ter o saco de dormir. A gente ficava no saco de dormir, dentro dele, bem retinho, aí quando começava a incomodar a posição, a gente mudava de lado, e então a gente acordava e a voltava a dormir... E se a gente ficava em uma parte de fora da manta térmica, voltava a fazer frio e acordava a gente (o esquema era o seguinte: barraca, manta térmica e por cima o saco de dormir). Apesar de todas as turbulências e dificuldades, tínhamos muitos momentos de humor e jorros de risos.
Assim, só para descontrair, não mais que Del, havia colocado uma pedra de uns 2kg escondida no bagageiro de Raffaello (alcunhado, por Del, de "menininho de ouro"). Raffaello, na sua inocência, ultrapassava a gente, como de costume, e se mandava para frente. Em uma das vezes, disse que a sua bike estava leve! Ao estar a nossa frente, avistávamos a grande pedra que carregava e nos pocávamos de dar risadas ! E olhe que estávamos subindo uma serra terrível!! Raffaello andou carregando esse pedregulho no bagageiro por uns 15 km até que, em uma das paradas, percebeu a dita cuja. Ainda bem que ele teve senso de humor.
Depois de termos atingindo o pico, começamos a descer. Após um certo tempo, quando nos aproximávamos de um restaurante em uma estação de esqui, vimos que Alex estava na beira da estrada, sentado, se tremendo de frio e esperando a gente. Foi muito bom para todo mundo vê-lo e sabermos que ele havia ficada com a gente. Ao nos aproximar, ele foi logo dizendo que no restaurante vendia um chocolate quente muito massa. Paramos e fomos nos aquecer com o néctar dos deuses no charmoso e aconchegante restaurante. Quando estávamos, todos, à mesa a degustar do quente e caro achocolatado, Del se aproximou e pediu desculpas à Alex pelas possíveis ofensas provocadas e pelos desentendimentos desencadeados. Alex, imediatamente acolheu Del no seu sublime gesto. Aquela cena emocionou todo o grupo, pois sabíamos que a depender do que rolasse a viagem poderia ser uma coisa bacana ou uma coisa "pesada". Sabíamos da importância e do que representava aquele pedido de desculpas e o aceite. Em dado momento, nós nos olhamos e nos percebemos profundamente tocados. Posteriormente, Alex confidenciou que precisava ter um momento só, mas jamais iria cruzar Ushuaia sozinho. O incrível disso tudo foram os gestos dessas duas figuras. Alex, por ter mantido o sentido de grupo e não desistido dele (o grupo) e Del, justamente "o palhaço" da galera, por ter tido o brio de pedir desculpas. Realmente almas elevadas.
Toda aquela situação de rodopios do grupo me fez lembrar de um filme chamado "Crash, no limite", que mostra as diferentes realidades dos personagens a depender do ponto de vista que se aborde. Daí pensei que o importante mesmo seria buscar ao máximo as várias perspectivas, ou seja, em outras palavras, ser compreensivo, sobretudo no que diz respeito às relações.
Saímos do restaurante nutridos, aquecidos e de "almas lavadas". Pegamos a estrada. Algumas poucas subidas, mas a boa parte foi só descida. O problema mesmo foi o frio, porque ao descer não fazíamos esforço (que ajudava a gente a esquentar). Estávamos já próximos e já podíamos avistar o portal de entrada da cidade Ushuaia. Uma emoção incomensurável nos tomou. Foi uma alegria intensa. Lembramos dos nossos esforços, das nossas labutas, das dificuldades, de tudo que passamos, dos nossos parceiros que nos aguardavam no hostel, dos sabores e dessabores dessa aventura e tivemos a certeza de que tudo valeu, valeu a pena porque durante toda aventura nossa alma não foi pequena (parafraseando o poeta Fernando Pessoa).
Com todas as certezas, aprendemos muito e produzimos vários sentidos nessas experiências.
Um desses sentidos foi compreender que a aventura ciclística não apenas nos possibilitou ultrapassar os nossos limites, mas sobretudo reconhecer os nossos limites e também os limites e imperfeições do próximo (uma grande lição que o Arestides legou para gente).
Depois de alguns dias de repouso em Ushuaia, nos despedimos de tudo aquilo na magia do período de Páscoa e com direito a neve.
E agora, aqui, nas lembranças, recordações, no reviver... Fico a pensar o quanto Arestides foi nosso farol e motivo de orgulho, o quanto Chico foi fiel e parceiro, o quanto Raffaello foi sóbrio e soube conviver no meio das diferenças, o quanto Nilo foi amigo e sábio, o quanto Paulo foi seguro e parceiro, o quanto Del foi alegre e companheiro, o quanto Alex foi cuidadoso e prestativo, o quanto pude aprender com todos eles, como aquilo...
Mas a pergunta que não queria se calar e que passava por todos nós era "o que estou fazendo aqui!?" Esta pergunta tão comum para gente, sobretudo nos momentos mais difíceis levava a outra: "o que movem esses ciclistas ?!"
Responda você, mas responda experimentando.
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Décimo primeiro dia de pedal - a crise no grupo
Nesse penúltimo dia de pedal acordamos um pouco mais de 7h. Fizemos, como de praxe, o nosso café, arrumamos tudo e partimos para a estrada nos despedindo daquele belo acampamento.
Assim que reiniciamos o pedal, percebemos que estava sem vento e fazia pouco frio, pelo menos no começo da manhã.
Nossa previsão seria rodar uns 35km até Tolhuin. Lá compraríamos algumas coisas e almoçaríamos. Depois pedalaríamos mais alguns quilômetros até encontrarmos um bom lugar para acampar.
Após umas boas pedaladas e na tranquilidade, chegamos a Tolhuin no tempo previsto. Assim, uns foram comer sanduíche na padaria e outros foram para um boteco almoçar, onde rolou bife a milanesa, arroz, salada, esfirra e pão - um verdadeiro banquete para os esfomeados.
De barriga cheia fomos ao super mercado comprar mais refil para o fogareirozinho, mas estava fechado (na Argentina o comércio, geralmente, fecha de 13h às 15h - no caso desse supermercado só iria abrir as16h30). Como eram 15h, batemos pedal.
A partir de Tolhuin, subimos cerca de 400 metros de altitude. A estrada tinha um outro lindo visual. Como disse um argentino que encontramos: "dura, pero linda". Neste visual havia montanhas com mais árvores, muitos rios nos vales e picos elevados. Porém, não só o visual havia mudado. Percebemos alterações também no tempo.
Nessa, subimos e descemos várias serras. Estávamos acompanhando o belíssimo Lago Fagnano.
A ideia inicial seria pedalar até faltar uns 75km para Ushuaia, mas tínhamos pela frente o desafio de encontrar um lugar para acampar. Até achamos um camping, mas era muito próximo de Tolhuin (apenas 10 km ) e isto quebraria toda a nossa programação.
Em um dado momento, o tempo começou a fechar, muitas nuvens se formaram e, finalmente, a chuva se acentuou. Também o temível vento patagônico chegou. O pedal se tornou mais difícil e também mais nervoso. Havia toda uma preocupação de enfrentarmos condições periclitantes.
Nesse momento, Alex ficou preocupado com o frio da noite e a chuva, pois não havia um bom lugar para acampar e estávamos, verdadeiramente, em risco. Alex então anunciou a possibilidade de buscar um Hostel, já que um transeunte havia dito que em uns 10 km à frente encontraríamos algo.
Esta mudança no planejamento, que implicaria mais tempo pedalando e possíveis despesas extras, sem uma discussão, deixou alguns incomodados, principalmente o Del, o grande parceiro de Alex. Em um dado momento, esse foi tirar satisfações com Alex e rolou um bate boca, onde ambos se sentiram ofendidos. Alex ficou bastante atingindo com a situação, muito provavelmente por causa de histórias anteriores, em especial as "desistências" de Arestides e Chico (Desistência esta entre aspas, porque, na verdade, não houve desistência. Esses parceiros seguiram outros caminhos em suas viagens).
A situação ficou mais tensa quando Alex disparou a pedalar na frente e sozinho, deixando o grupo na retarguarda. A crise havia se instalado. Aquele, que a rapaziada creditara e autorizara como líder, havia, supostamente, deixado o grupo à deriva.
Os cinco que ficaram para trás se mantiveram em bloco e pedalaram unidos. Del sempre ficou por último, como que cuidando dos parceiros (e olhe que Del é um monstro no pedal).
A estrada estava péssima, tinha vento, fazia frio, chovia e não havia bom lugar para acampar, Além de tudo isso, estávamos já bastante cansados. Nessa altura do campeonato já davam 18h.
Quando estávamos no topo de um morro, já quase escurecendo, vimos, embaixo, luzes piscando. De cara sacamos que era o Alex. Ele estava na entrada de uma propriedade privada onde havia um restaurante e algumas casas. Não era o Hostel como havíamos suposto, de acordo com a informação recebida. Era um belo lugar onde tinha um lago e um grande restaurante, mas que já estava fechado.
Alex, antes de chegarmos, convenceu o responsável do estabelecimento a nos arranjar um lugarzinho de modo que o grupo pudesse passar a noite. Não soubemos exatamente o que Alex falou, mas parece que bateu no coração de Pedro (assim se chamava o argentino e proprietário ou gerente do estabelecimento, ficamos sem essa precisão). Pedro liberou, gratuitamente, uma casinha para gente. Nesta, tinham duas camas e três colchões. Havia também banheiro, água e até lareira!
O clima estava tenso e quase o grupo não batia papos mais interativos. Mesmo assim o rancho foi organizado. Teve até sorteio para ver que iria dormir nas camas / colchões. Sorte para Nilo, Raffaello e Marcelo.
Entretanto, naquela noite não rolou jantar coletivo, não houve céu estrelado, não demos risadas... Em compensação, a casinha que dormimos nos proporcionou uma noite quentinha...nos protegeu do frio e, quiçá, nos salvou.
Havia sido, apesar dos entremeios, uma decisão acertada.
quarta-feira, 1 de abril de 2015
Décimo dia de pedal - bicicletando: viajando sem foco
Décimo dia pedal - viajar sem foco
Saímos de Rio Grande por volta das 9h30 (aliás, este foi um horário regular das nossas saídas). E pegamos a estrada que nos levaria até Ushuaia. Todavia, nosso planejamento era pedalar cerca de 75km e acampar. Depois, pedalar mais 70km, passando por Tulhuin. Finalmente, pedalar o último dia até chegar ao nosso destino final.
Nesse ante-penúltimo pedal, o dia amanhecera chuvoso, mas não muito. Isto fez com todos se preparassem com suas capas de chuva, calças impermeáveis, proteção para os sapatos e até os improvisos, como sacos plásticos enrolados nos pés e luvas de borrachas (aquelas que se usam na cozinha) para protelar as mãos. As vezes ficávamos muito estranhos com toda aquela parafernália, mas depois do trauma do primeiro dia de pedal, qualquer possível exagero não seria pouco.
Saímos da cidade e logo pegamos uma beira mar muito linda. Havia retões de quilômetros e também longas curvas, de modo que curtíamos todo o visual da imensidão do mar. Do no nosso lado direito havia pequenos morros com diferentes colorações, mas sempre no espectro do marrom.
Nesse trecho, o tempo tinha melhorado, havia pouco vento, mas a pista estava molhada. Tínhamos que tomar cuidado não só por causa da água no asfalto e no acostamento, mas também por causa dos carros, ônibus e, principalmente, os caminhões, que passavam em alta velocidade e, por algumas vezes, muito próximos da gente, deixando-nos em grande perigo. Isto fez com que passássemos a pedalar de maneira mais prudente, ou seja, toda vez que ouvíamos um veículo se aproximando, saímos da linhazinha branca, no canto do asfalto, e íamos para o acostamento, que, via de regra, era de barro ou brita.
Quando começamos a sair da beira mar e passamos a subir montanhas e entrando mais ao interior, notamos que Del e Alex não estavam vindo. Paramos na entrada de um camping para aguardar os dois e ao mesmo tempo analisamos a possibilidade de passarmos a noite ali. O problema é que tínhamos rodado pouco para o nosso objetivo de 75km (havíamos rodado a metade ou menos até) e era ainda cedo, cerca de 13h.
Uns vinte minutos depois que tínhamos parado, os meninos chegaram. O pneu da bike de Del havia furado. Esta fora a segunda situação de pneu furado na viagem.
Decidimos avançar, pedalar mais e aproveitar o dia.
Havíamos nos distanciado do litoral e a geografia já era outra. Estávamos subindo, começava a aparecer pequenos rios, a vegetação mudara, sobretudo porque tinham mais árvores e também eram maiores.
Por volta da 17h procurávamos um bom lugar para armar o nosso acampamento. Passamos por uma ponte e vimos um riacho, pessoas fazendo piquenique e fogueiras. Seria ali mesmo o nosso rancho! Escolhemos um bom lugar (depois descobrimos que não foi tão bom assim porque montamos as barracas debaixo das árvores e havia risco das mesmas caírem sobre a gente, pois queda de árvores é bem comum na região) e tivemos direito a fogueira. Isto porque uma família que estava usando, tinha deixado para gente. Tudo perfeito! Riacho, fogueira, protegidos do vento e o próprio camping.
Lógico que resenhas não poderiam deixar de ter nesse dia. Saíram Del e Raffaello para tirar fotos no bosque, na volta Alex perguntou, de onda, onde estava o celular dele para fotografar algumas coisas. Del se deu conta que não estava com ele e saiu para procurar de volta no bosque. Alex ficou morrendo de dar risada, pois acreditava que estava a fazer Del de bobo, afinal supunha que tinha ficado (ele, Alex) com o celular. Depois de alguns minutos, chegou Del aliviado com o celular na mão e Alex branco de susto. Ou seja, Alex achava estar com celular, mas este realmente havia sido perdido!
Tínhamos rodado bem aquele dia. Foram 75km de boa e estávamos aproveitando uma das melhores noites de acampamento. Só faltou mesmo a carninha para assar na fogueira.
Na noite, fomos brindados com um céu estrelado, porém sentimos frio. Felizmente nenhuma árvore caiu sob nossas barracas. Pensamos sobre nossas vidas, fomos dormir e sonhamos como crianças.
Em um dos sonhos, o guru Nilo me acompanhava em uma caminhada. Ele com aquele jeitão distraído, observador... Segurava sua bike, com um monte de tralhas e pedacinhos de panos e cordas caindo pelos lados. Era a bike mais desorganizada e também a mais engraçada.
Nessa caminhada, cada um segurando suas bikes, conversávamos sobre a vida e sobre a obsessão de termos metas e objetivos o tempo todo. Eu mesmo já havia defendido ter metas, objetividade e foco (inclusive ter foco me ajudou a superar alguma dificuldades no pedal).
Nilo falou "bicicletar". Sim, o verbo "bicicletar"! Na hora lembrei e pensei um monte de coisas...
Estava no foco. Estava olhando para linha branca da estrada. Aquela linha que fica no canto da estrada e que seguimos obstinadamente ao pedalar. Dei-me conta que estava perdendo algo da viagem. Sabia que ter foco era algo importante na vida, pois nos ajuda a ter objetivos, mas a vida não é só feita de objetivos e metas (isto me fez lembrar a música de Paulinho Moska, "A seta e o alvo" - eis o refrão: "Mas você só quer atingir sua meta. Sua meta é a seta no alvo, Mas o alvo, na certa, não te espera").
Nilo prosseguiu, como que adivinhasse o que eu pensava.
"Por isso o verbo 'bicicletar'".
Sim, Nilo, este verbo significa justamente deixar rolar, curtir, ir a diante.
E continuando nos meus pensamentos... A vida demanda objetividade as vezes, sobretudo necessitamos algo específico e temos que lançar mão das nossas energias. Objetividade é concentrar energia e precisá-la em algo. Porém, a objetividade não pode e nem deveria ser a preponderância da vida. Esta, em vários momentos, pode ser objeto (da própria vida), mas não a vida um objeto.
O problema é que o sistema produtivista e consumista instaurou o reinado da objetividade e tudo ou quase tudo escorrega para esse funil, que afunila a vida.
A vida não é só objetiva (ou de objetividade). A vida mesma não é precisa, não é focada, a vida é transitória, flutuante. "Navegar é preciso, viver não é preciso" (Fernando Pessoa).
Pedalando apenas com o foco (olhando para linha branca) me ajudava a superar algumas dificuldades, mas passar o pedal todo assim, me fazia perder a riqueza da viagem.
Acordamos bem para enfrentar o penúltimo dia de pedal.
terça-feira, 31 de março de 2015
O nono dia de bike - a viagem da viagem
OBS.
Esta observação deveria estar presente desde o primeiro relatório do pedal. Na verdade é um pedido de desculpas antecipado e uma justificativa pelos prováveis erros de português nos relatos aqui escritos. A questão é que a missão de escrever na flor dos acontecimentos e revisar se torna praticamente impossível. Então, cara ou caro leitor, tenha compaixão.
Dormimos em San Sebastían (Chile), na Hosteria La Fronteira. O dono era bem enfezado. O lugarzinho nos fazia lembrar uma cidade fantasma, mas foi o que conseguimos naquele final de tarde, já exaustos de pedalar na estrada "casca grossa (posteriormente soubemos que na aduana argentina, 15 km adiante, aproximadamente, havia uma outra hosteria que aparentava ser melhor). A energia desse lugarejo era ligada às 18h, via gerador, portanto só podíamos tomar banho (água quente) a partir desse horário. Internet só as 20h, no restaurante, mas fechava as 22h, junto com o lugar. Bem, ao menos tivemos um quarto quentinho e uma cama razoável (um quarto com duas beliches ), mas era tudo do que precisávamos. Tivemos uma confortável noite.
Apesar de alguns deleites como vinhos e cama quentinha, além das coisas maravilhosas que víamos, essa vida de aventura ciclística o cotidiano é muito duro. Nos acampamentos e nas pousadas, tínhamos que, interminavelmente, montar e desmontar as bagagens das bikes, dormir sentindo frio, comer purê de batata com sardinha vários dias, acordar cedo e pedalar, fazer comida e pedalar, dormir para descansar e pedalar.
Naquele dia acordamos bem cedo para arrumar as coisas, tomar o café no La Fronteira (literalmente café sem leite e dois pedaços de pão) e pedalar 100 km até a cidade Argentina, Rio Grande. Nossos demais companheiros estavam lá nos esperando (Nilo, Arestides, Chico e Paulo).
Depois que passamos na aduana (saindo do Chile e entrando na Argentina), tivemos pela frente mais uns 20 km de ripio e depois foi o asfalto. O dia estava bom, sem vento, pouco frio e até um sol para nos alegrar.
Pegamos o asfalto e demos um pau legal. A nossa pegada girava em torno de 20 a 25km/h (lembre-se que estávamos em montain bike e não em speed, que estávamos com uma carga aproximada de 35kg e que havia muitas subidas!).
A chegada à Rio Branco foi emocionante porque estávamos revendo o Oceano Atlântico (estávamos mais em contato com o Pacífico). Além desse aspecto mais simbólico para gente havia também a beleza mesmo do trecho. Subidas encurvadas e ao lado despenhadeiros que davam para a imensidão do azul marinho. O cheiro do mar, o sal no rosto e os contrastes anis. Tudo isso junto que a iminência de reencontrar os parceiros, dava um gosto especial e uma certa ansiedade ao pedal. Acho que, por isso tudo, a pegada do pedal foi forte.
Entramos na cidade e não sabíamos onde os caras estavam hospedados. Procuramos um local que tivesse acesso à internet para ver as possíveis mensagens que eles haviam enviado ao nosso grupo no WhatsApp (adotamos esse procedimento para nos comunicar em situações como essas). Ao encontramos um posto que tinha Wi-Fi, pegamos a mensagem (com o endereço do Hostel) que Nilo havia postado.
No caminho percebemos que a cidade era animada e pareceria haver uma festa (talvez patriótica, pois Rio Grande foi a principal cidade base na guerra contra a Inglaterra por causa das Ilhas Malvinas)
Chegamos e encontramos a galera. Abraços e saudações. Passamos a organizar os próximos trajetos e nos inteirar como havia sido os dias para os dois grupos.
Anunciamos que "quebraríamos" a viagem até Ushuaia em três dias, fazendo mais dois acampamentos no caminho e tornando-a menos pesada. Paulo e Nilo se animaram. Arestides declinou e Chico "bateu martelo" que seguiria a decisão do amigo. Os dois tinham resolvido pegar um ônibus e nos aguardar em Ushuaia.
Esta situação de não termos os oito pedalando juntos, principalmente nos trechos finais, abalou, cada um.
de modo diferente (e também pelo planejamento, para os oito, não ter saído como havia se imaginado).
Arestides, que é o nosso parceiro de 73 anos, o nosso orgulho maior, sentiu dificuldades em pedalar com a bike carregada (certamente mais de 20kg de bagagem ele carregava). Arestides havia tentado duas vezes (ida a Taip Aike e Morro Chico) e não estava se sentido bem por supor que poderia estar atrapalhando os demais.
Paralelo a isso houve as inevitáveis discussões e questionamentos quanto ao planejamento da viagem: um grupo de oito ciclistas e com capacidades diferenciadas seria realmente capaz de fazer o percurso / tempo traçado? Todos, de um modo ou de outro, se implicaram nesse projeto e com este planejamento, mas por que não pensaram nessas importantes variáveis?! Faltou segurança para membros do grupo? Como se deu a liderança e tomadas de decisões? Tudo estava claro para todos no que diz respeito às dinâmicas dos pedais e dos possíveis desafios!? Há culpados ? Ou todos têm responsabilidades pelo processo da aventura!?
Estas e outras importantes questões perpassaram nas cabeças dos integrantes, sobretudo nesse dia. Embora não se tenha discutido abertamente com todos estas questões, havia um "clima no ar" - talvez pura sabedoria instintiva do grupo, por não ser ainda o momento de expor coletivamente a situação.
Ah! Mas certamente haverá tanto a conversar e mais ainda a ouvir. Sobre isso, algumas coisas fiquei a meditar, principalmente depois de uma caminhada que dei com Nilo em Rio Grande, quando saí com ele para pegar uns pesos argentinos no banco. Dizia Nilo, no seu jeito guru de ser, que, ao bater um papo com Arestides, lembrou do ex-psicanalista e criador da análise corporal, Wilhelm Reich, quando este falava do que era mesmo ser um grande homem. Um grande homem, para Reich, é justamente aquele que se reconhece pequeno, ou seja, que vê seus limites e suas dificuldades. Possivelmente Arestides não estava se sentido bem por não estar conosco e por se sentir, de algum modo, atrapalhando. Não sabe ele, eis algo que precisaria ser dito, que a simples tentativa de pedalar já inspirava todos (realmente fora de sentido e ingenuidade de todos supor que esse pedal ocorresse como fora imaginado nas condições postas para um grupo tão heterogêneo). Não é por menos que a frase mais ouvida no pedal foi: "Sr Arestides quando crescer quero ser igual ao senhor ".
Uma outra coisa que observei e que fiquei deveras impressionado foi com o cuidado e a fidelidade que Chico teve com Arestides. Chico poderia ter feito os trechos finais, mas preferiu acompanhar Sr Arestides em ônibus até Ushuaia. Para Chico, suponho, estar ao lado do amigo era mais importante, além do mais parece que ressignificou a viagem, ou seja, deu outros sentidos.
Diante disso tudo refleti no que cada um aprendeu ou pode aprender e o que leva de lição dessa viagem. E quando falo "dessa viagem" não estou me referindo apenas a viagem de bike, literalmente falando. A viagem, novamente nas palavras de Nilo, é também tudo que acontece no processo, as histórias que rolam, as relações, os dramas, as vivências... A viagem é viagem para outras viagens.
sábado, 28 de março de 2015
O oitavo dia de pedal - ripio casca grossa
No nosso acampamento, depois de 60 km de Porvenir, choveu durante a noite, mas não muito. Porém, fez frio. Como combinamos dos três dormirem no abrigo e eu na barraca, deu espaço suficiente para uma boa acomodação, tanto para Alex, Del e Raffaello, quanto para mim (na barraca). Decisão acertada!
O temor a noite foi com a raposa. Não sei se verdade, mais Del disse que havia uma rondando minha barraca, como já havia falado anteriormente.
Naquele acampamento, o amanhecer no austral foi o verdadeiro astral ! O sol nascendo entre montanhas e o mar de fundo compunham um quadro sensacional, deixando todos muito inspirados para enfrentar os 90 km que nos aguardavam, sem contar a cansativa estrada de ripio.
Para nos dar "sustância", o café da manhã foi caprichado e delicioso. Rolou um café com leite, cuscuz, ovos, queijo e pão. Tudo feito pelo mestre cuca Alex.
A vida simples que vivemos nessa aventura revela o essencial da vida. E uma pergunta que não cessa é "o por que topamos viver tudo isso?". De modo geral as nossas respostas giram em torno de buscar a simplicidade da vida, da essência das coisas, do contato com a natureza, de entendermos que não precisamos de muito para sermos felizes.
O dia prometia. Havia sol, com poucas nuvens e sem vento. Tínhamos 90 km pela frente de ripio, entre subidas e descidas - e isto deveria ser falado, repetido, para entendermos bem claramente o que haveríamos de enfrentar.
E por falar em enfrentar, achava o máximo o modo como meus parceiros encaravam seus pedais. Eu sempre ficava impressionado com a capacidade de pedalar dos meninos. Raffaello, Del e Alex bailavam ao pedalar. Era mesmo muito bonito ficar olhando eles desviarem das pedras, entrarem nas curvas.. era mesmo como se estivessem dançando.
Um outro ponto interessante eram nossas conversas com os bichos na estrada. Não era coisa de doido não, era mesmo curtição. As lhamas, por exemplo, sempre muito curiosas, quando passávamos, emitiam sons. E a gente, para brincar, ficava "boiando" elas. Então os guanacos (lhama), disparavam! Tudo isso era muito divertido e até ajuda a gente a esquecer dos desafios.
Nesta pedalada percebi também que minha performance melhorou, em parte por ter criado mais o hábito. Entretanto, preciso resolver a questão da mesa (colocar uma regulável) e ter um bar end maior (estou forçando muito as mãos e braços). Por enquanto vou levando com o sacrifício. Por exemplo, a cada 10 km tinha que dar uma paradinha porque minha mão adormecia. Na verdade, todas essas adversidades fazem parte da aventura. O importante é ter calma, paciência e foco, sobretudo em uma viagem de longa duração. Aquela frase que diz "estrada longa, passos lentos" é a mais pura verdade. Não adianta se afobar. E por falar nisso, em uma pegada como essas a pessoa pode entrar em desespero se não tomar a calma suficiente devido ao tamanho do deserto e a longa estrada. Falo isso por experiência própria. Por muitas vezes me percebia iniciando uma ansiedade (que pode levar ao desespero) ao pensar no que teria que pedalar ainda e se seria capaz. Esse tipo de pensamento, que eu tinha, só fazia piorar a situação.
Uma estratégia que desenvolvi foi olhar para frente e ter uma ideia do percurso. Depois focar na estrada (sem me preocupar se faltava muito para chegar na curva ou na ladeira, por exemplo). Focar foi a palavra chave.
Apesar de todos esses entendimentos e estratégias, não dirimia a péssima qualidade da estrada nesse trecho. O ripio era casca grossa e com muita "costela de vaca". Não tinha como desviar e como avançar muito. Para piorar, a estrada era muito movimentada, com muitos caminhões e carretas. Tínhamos que redobrar os cuidados.
Felizmente chegamos bem em
San Sebastian (por volta das 17h30). Cansados, aceitamos a primeira Hosteria que encontramos. Comemos e fomos dormir.
O sétimo dia de pedal - de Porvenir para o que vier
O sétimo dia de pedal
O grupo havia se dividido. Uma parte tentaria ir de ônibus de Punta Arenas à San Sebastian e o outro grupo manteria o planejamento original, ou seja, pegar o ferry boat, descer em Porvenir e ir de bike, por uma estrada de ripio (estrada de cascalho), até San Sebastian (que é fronteira, dividindo Chile e Argentina - Tem a San Sebastian do lado chileno e outra do lado argentino). Este percurso dista 150 km. A previsão inicial seria de dois ou três dias, pois a dureza da viagem deixa todo mundo moído e não é possível fazer percursos muito longos.
Quatro e meia da manhã e já se ouvia movimentos nos quartos. Uma parte da galera indicava certa ansiedade com o novo desafio que estava pela frente. O que será que iríamos encontrar no percurso? Enfrentaríamos frio? Chuva? Ou o temível vento patagônico? Seria uma região habitada, pelo menos com alguns moradores nas fazendas? Ou encontraríamos uma região inóspita como foi Tapi Aike? Nossas energias positivas emanavam para que o tempo fosse não muito frio, sem chuva e, pelo menos, com pouco vento.
O nosso embarque no ferry boat transcorreu bem. Conseguimos pagar o valor de passageiro comum (sem carga), o oceano estava tranquilo, não ventava, fazia pouco frio (15 graus) e o céu estava nublado. Durante a viagem, na travessia do estreito, aproveitamos para tirar fotos e descansar, pois o dia seria pesado.
Chegamos em Porvenir. De cara uma vila muito simpática. Algumas coisinhas, galpões, bares e restaurantes, muitas aves, barcos, cais, pontes... Tudo com um cheiro característico de mar, como uma cidadezinha de beira de praia no Brasil. Comemos alguma coisa enquanto tirávamos fotos dos pinguins que aproveitavam o sol de meio dia, apesar do tempo nublado.
Barriga forrada, pé na estrada. Logo no começo sacamos o lugar incrível que estávamos a pedalar. Percorrermos à beirada da "Baía Inútil", com paisagens incríveis. Havia lagos, muitas aves, animais silvestres (águias pousadas nas estacas, raposas cruzando a estrada, guampaços (lhamas) nos acompanhando...), despenhadeiros, um mar, que é a confluência dos oceanos Pacífico e o Atlântico... As águas do mar estavam calmas e isto dava um toque especial ao nosso pedal, algo bucólico. Pequenas ondas rolavam na beira. Não havia areia na praia, mas sim pedras. A água escura do mar, o friozinho de 10 graus e as aves que cruzavam o céu e emitiam sons era como se decorassem as ensaiadas que margeávamos.
Fizemos um pouco mais de 60 km pelo litoral até aquele momento. Havia muitas subidas e descidas. Não foi um trecho fácil, apesar da boniteza do visual e do astral contagiante. Vivemos, inclusive, momentos difíceis, em relação às intermináveis subidas que enfrentamos. Em contrapartida, era um delírio total quando deslizávamos a 40 ou 50 km/h, descendo as ladeiras, sentindo o vento frio passar nos nossos corpos e curtindo todo o visual. Era, com certeza, um momento que tomávamos fôlego.
Em alguns trechos subíamos tanto que, de lá de cima, onde estávamos, podíamos ver o que estava nas praias. Era também muito perigoso, porque, como a estrada era de ripio (cascalho), havia sempre a possibilidade de derrapagem e, nas partes altas, o despenhadeiro era enorme. Tinha trechos que havia buracos e qualquer vacilo poderia ser literalmente o fim.
E por falar em perigo tivemos uma dupla sorte. Primeiro, foi o companheiro Rafaleo que, por uma questão de segundos, ao lançar seu olhar para um guanaco (lhama) que estava próxima, entrou nas britas, perdeu o controle da bike e caiu. Bateu o joelho. Ficamos muito preocupados. Ele passou um tempo caído no chão e calado. Porém, logo se recuperou. O segundo foi Del, que descendo embalado em uma ladeira (a 35 km /h) foi atravessar uma parte mais fofa da estrada e se desequilibrou. Para evitar o pior, Del se jogou no chão. Tudo não passou de um grande susto. Breve ele estava de boa e de volta ao pedal.
Nosso objetivo era chegar em um cruzamento (entre uma via alternativa é a principal, que conduzia a San Sebastian. Os últimos quilômetros foram terríveis, pois nossas pernas já estavam moídas de tanto subir e descer, mas ainda faltava uma
longa (não íngrime) subida. Chegamos esbaforidos no ponto planejado. Já eram 17h30 e precisávamos logo organizar o acampamento. Como havia uma espécie de ponto de ônibus ou abrigo (já utilizados por outros ciclistas, pois tinha uma série de assinaturas no interior desse abrigo), os caras resolveram dormir lá. Particularmente achei que ficaria apertado para uma quarta pessoa, sobretudo uma pessoa com as minhas proporções. Optei então em montar uma barraca próximo da dormida dos caras. À noite foi muito massa, com uma comidinha deliciosa feita por Alex (arroz temperado, linguiça picante e purê de batata). Tivemos o privilégio de tomar um vinho e depois ainda rolou um cafezinho. Depois de comermos, e ainda degustando um bom vinho chileno, conversamos sobre a vida, sobre nossas histórias... Sabe aqueles papos de ser humano para ser humano, onde, genuinamente, acontece o diálogo? Foi realmente um momento de encontro entre a gente! Para completar, passou um caminhão carregado de pequenas toras de madeiras e Alex, na cara dura, pediu umas duas lascas. Resultado: rolou até fogueira em nosso rancho naquela noite de céu estrelado, de friozinho gostoso e ao son do barulho do mar.
Nossa apreensão durante a noite era com as raposas, pois havia um aviso que dizia para ter cuidado com as mesmas, pois estas costumavam, sorrateiramente, a rasgar os sacos e mochilas a procura de comida. Felizmente não rolou rapada, embora Del tenha dito que viu uma rondando minha barraca durante a noite.
O próximo dia nos aguardava com 90 km pela frente e de estrada com ripio. Em nosso pouso, naquele noite, com os corpos exaustos, mas ainda em êxtase, pensávamos também nos nossos outros companheiros. Como eles estariam? Aonde se encontrariam? Haviam conseguido pegar os ônibus para San Sebastian?
Dormimos, por fim, com aquela sensação sabendo que , se a viagem terminasse ali, já havia valido apenas, principalmente por aquele fabuloso trecho percorrido.
quinta-feira, 26 de março de 2015
O sexto dia de pedal
Acordamos bem cedo e ainda estava escuro (o dia clareava por volta das 7h). Tínhamos pela frente 150 km. A ideia era pedalar 45 km e chegar até Vila Tehuelches, comer alguma coisa, nos reabastecer de água e voltarmos à estrada.
Enquanto desarmávamos as barracas e preparávamos alguma coisinha para comer, ouvimos de Alex um monte de impropérios, seguido de risos. Será que Del havia aprontado alguma coisa com ele!? Não, desta vez Del era um anjinho, sentado em um banco, olhando para a cena e se pocando de dar risadas.
Alex havia bebido urina em um copo que Rafaelo utilizara a noite (como faz muito frio a noite, quase todos usam algo para se aliviar e sem sair da barraca). Na verdade, Alex não imaginou que pudesse ter mijo no copo. E o pior é que antes de beber utilizou um pouquinho daquela "água" para fazer o café da rapaziada.
"Café" tomando, partimos na frente, Chico, Nilo e eu. Como os caras pedalam muito bem, nosso planejamento era adiantar o máximo e nos encontrarmos na Vila Tehuelches. Não teve nem graça, no meio do caminho fomos alcançados.
O pedal transcorreu tranquilo, só não pela chuva que pegamos no trecho final. A paisagem não era das mais bonitas, pois o que reinavam eram fazendas de ovelha com a mesma vegetação e relevo (vegetação rasteira e pequenas subidas e descidas).
Nessas estradas patagônicas o gostoso de pedalar é porque raramente passa carro, a estrada é muito boa e as paisagens são geralmente muito bonitas. Tudo isso torna ainda mais propício para as nossas meditações.
Emparelhado com Nilo, este me falou que a onda do ciclismo é algo solitário. Penso que seja algo paradoxal, ou seja, o ciclismo é um esporte social, de grupo, de contato, mas também de introspecção, de mergulho em si.
A experiência de pedalar, nessa dimensão mais solitária, nos proporciona pensar e refletir sobre um monte de coisas. Entretanto, chega um momento que os pensamentos cessam. Isto pode ser identificado como ascese da meditação. Somos levados, "mergulhamos em nós mesmos", flutuamos a um estado de paz, de dissolução do eu, onde o que impera é somente o ofegar, as próprias pedaladas, o zunido da bIke, a velocidade e a sensação de liberdade.
Chegamos na Vila Tehuelches por volta das 11h30. Como todos estavam muito cansados e restavam ainda 100km, resolvemos pegar um ônibus até Punta Arenas.
Ao chegar nessa bela cidade (uma das maiores da região), reencontramos Arestides. Fizemos um pequeno tour pela city, resolvemos questões financeiras e fomos comer alguma coisa decente.
Durante o jantar conversamos sobre nossa viajem, propósitos e condições do grupo. Uma parte do pessoal (Nilo, Chico, Paulo e Arestides) resolveu tentar pegar um ônibus até San Sebastian (Argentina) e uma outra parte (Del, Rafaelo, Alex e eu) optou por seguir de bike, atravessando o Estreito de Magalhães por balsa (como estava previsto). A ideia seria nos encontrar em San Sebastian.
Nessas nossas ponderações entendemos que estamos aqui, acima de tudo, para curtir. A bike para gente é prazer, amizade e elevação humana. Não estamos competindo e nem querendo mostrar nada para ninguém. Cada um tomou a decisão que melhor lhe coube, de maneira coletiva e respeitosa. Estamos felizes por estar aqui e, cada um a seu jeito, está levando dessa aventura iguarias fantásticas em termos de lembranças e aprendizagens.
quarta-feira, 25 de março de 2015
O quinto dia de pedalada
Saímos de Puerto Natales em direção a Punta Arenas. 250 km nos esperava. Sabíamos que não daria para fazer em apenas uma puxada. A sugestão foi acampar em um lugarzinho chamado Morro Chico. Na verdade esse lugar, ao lado de um morrinho que dá nome, se resume em um posto policial, um boteco (que estava fechada) e umas casas e galpões abandonados.
A largada de Puerto Natales se deu as 9h30 e foi acompanhada de ansiedade e expectativa de alguns em conseguir ou não, pelo menos era isso que Chico e eu sentíamos (isto por causa da nossa desistência na terceira pedalada).
O dia havia amanhecido com muita neblina e isso indicara um sinal, pois seria um dia de pouco vento e menos frio. Na verdade, todo o pedal foi, do ponto de vista climatológico, muito bom. Não tinha vento e fez até calor (possivelmente 18 a 20 graus).
A estrada (fizemos esse pedal no asfalto, "ruta 9") era basicamente plano, com subidas e descidas suaves. O que pegou mesmo foi o cansaço acumulado da viagem.
Um primeiro grupo partiu na frente e um outro formado por Nilo, Rafaelo, Arestides, Chico e eu, pedalavam no fundão. Nilo e Rafaelo adiantaram um pouquinho. Arestides sentiu a pegada (apesar de pedalar muito bem, sentiu as seqüências de pedais e a bike muito pesada com a carga). Conseguiu carona e foi para Punta Atenas nos aguardar.
O acampamento transcorreu bem e fomos nos recolher cedo, pois o outro dia seria, nas palavras de Del, Nilo e Alex, "doideira", "só vem quem tem negócio" e "sinistro", respectivamente.
Ao estarmos nas nossas barracas, procurávamos descansar para os 150km que nos esperavam. Ao mesmo tempo, colocávamos nossas cabeças nos sacos de dormir e refletíamos sobre as nossas histórias. Afinal, cada um de nós, nessa aventura, tinha suas histórias, seus dilemas, suas crises, seus limites, suas fraquezas, suas preocupações...
Sobre as minhas histórias, desse dia, teve a ver com o cuidado que tento cultivar. Para essas viagem alguns dos meus entes recomendou que eu buscasse o cuidado. Isto me remete a pensar o quanto, algumas vezes, sou negligente comigo. Será que tem a ver com a pulsão de morte, na visão psicanalíticas? De toda sorte, nessa viagem tenho optado por me cuidar e estar vivo.
Uma outra coisa das minhas histórias é p quanto eu (e também as pessoas em geral) carregam e guardam coisas desnecessárias. Guardar coisas desnecessárias (coisas matérias e subjetivas) faz com que a vida fique pesada.
Fiquei pensando sobre isso depois de ler uma passagem do livro Diário de uma bicicleta, mas também porque terminei trazendo algumas coisas desnecessárias, como roupas demais, o que tornou a carga da bike muito pesada. E isto rola na vida da gente em termos subjetivos também. O quanto carregamos coisas desnecessárias para a nossa vida? O quanto carregamos raiva, magoa, culpa...? Acho que uma boa pergunta é se temos reais necessidades dessas coisas. Se não temos (e provavelmente não a temos) porque carregamos?' Com certeza nossas vidas ficam, desnecessariamente, pesadas.
Minha lição: da próxima vez levarei menos roupas.
Todos dormiram em paz naquela noite ao som de Bob Marley, "concrete jungle", uma cortesia do Chico.
segunda-feira, 23 de março de 2015
Nossas bikes - vida, movimento e equilíbrio
Esses dias que intercalaram o quarto pedal para o próximo, o quinto, foram considerados "férias". Ficamos na agradabilíssima cidade de Puerto Natales (Chile), em um
"Hostal", não menos agradável (Picada do Carlitos). As funcionárias são muito simpáticas, é bem localizado e tem um preço abordável (uma média de R$ 80,00 a diária$. A cidade é cheia de bares e restaurantes e há muitas lojas para compras.
Durante essas férias demos roler na cidade, a pé e de bike, tiramos muitas fotos e alguns do grupo foram visitar Las Torres de Paines, um esplendoroso parque, repleto de montanhas, com lagos, cachoeiras, geleiras, florestas, animais silvestres...
Durante esses dias, também em Puerto Natales, aproveitei para terminar a leitura do livro "Diário de uma bicicleta", de Fabrício Maurício. O livro fala da relação do cara com sua bike. É um livro massa e que mistura fantasia com realidade. O cara conversa com a bike! O livro traz também uma série de reflexões sobre a vida.
Acho que inspirado nessa leitura, comecei a pensar na minha relação com magrela.
Em casa, tenho guardada uma antiga bike. É uma MTB Caloi Aluminium. Penso em prepará-la para uso urbano, sobretudo para ir ao trabalho. A minha parceira de viagem e aventura é uma Vizan, aro 29, quadro 21, preta e branca, equipada com sistema Shimano Deore. Tive um pouco de trabalho para encontrar uma bike com essas medidas (ato 29 e quadro 21) e dentro de um valor possível para as minhas condições, mas depois de uma minuciosa pesquisa, encontrei essa marca, que é nacional e relativamente nova no mercado (Santa Catarina). Como pai coruja, certamente, acho essa minha bike muito massa! É claro que preciso fazer uns ajustes, isto quer dizer colocar uma mesa regulável e um bagageiro pequeno na frente para as próximas grandes viagens.
Ainda sob inspiração do livro, percebo que eu tenho ganhando confiança da bike e ela de mim, isso porque a estrutra se adapta ao meu peso, ao jeito de pedalar, etc.
Assim, noto que tenho muito mais confiança, por exemplo em descer as ladeiras. Cheguei a embalar 70 km e me senti seguro. Outra feita a deixei completamente carregada (com 35 kg) e peguei verdadeiro rallye sem me sentir cabreiro. Mesmo cortando o vento da Patagônia, com uma inclinação, ao pedalar, de 20 graus, fui de boa.
É claro que essas relações aqui retratadas não dizem respeito apenas a mim. Cada um dos meus companheiros desta viagem têm o que falar. E possivelmente uma coisa comum é a experiência de liberdade que sentem. Ao montar na bike, vivemos a experiência de liberdade, nos conectamos com nós mesmos, "permitimo-nos a diferença e seguimos nossas lendas" (Inspirado em Diário de uma Bicicleta).
Acho que a ação de pedalar, que é justamente a magia do movimento e do equilíbrio que traz o grande ensinamento da vida, ou seja, o equilíbrio só se dá em movimento (inspirado em Diário de uma Bicicleta). A vida, afinal, é movimento.
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